Aventuras e desventuras na Itália
Esqueça Paris. Visite a Itália. Estive em Paris há uns três meses e, sinceramente, não fiquei impressionado. Já no mês passado estive na Itália e a viagem foi incrível. Estive em Bérgamo, Milão, Roma e Florença. Em todas as cidades a atmosfera era excelente, como um Rio de Janeiro sem as coisas ruins. Não tinha praia, mas eu não ligo para praia. O clima estava ótimo, com sol forte, que chegava a ser excessivo em Roma. As pessoas são em geral simpáticas, prestativas quando você precisa. Enfim, a Itália foi tudo o que a França não foi. Sem dizer que a Itália é totalmente fotografável. Por algum motivo, quase não fotografei na França, enquanto na Itália era difícil dar dois passos sem querer tirar uma foto.
A história por trás dos lugares é em geral fascinante também. São, afinal, mais de dois mil anos de acontecimentos que definiram o curso da história. E é muito impressionante simplesmente saber que o Coliseu foi terminado no ano 90 d.C. e que o Arco de Constantino, logo na frente dele hoje em dia, foi construído em 312 d.C. Quer dizer, o Coliseu já tinha mais de duzentos anos de idade quando o arco foi construído. Impressionam também outros fatos envolvendo o Coliseu: durante os jogos inaugurais, houve 100 dias de festas, durante as quais 2.000 gladiadores morreram e mais de 10.000 animais foram sacrificados. Li em algum lugar que certos animais (como elefantes, etc.) foram extintos de algumas regiões da África porque eram regularmente levados para os espetáculos no Coliseu e em outros lugares do Império Romano. Tudo isso sem falar das simples execuções, como a “damnatio ad bestas”, quando os condenados eram acorrentados a pilares para serem devorados vivos por leões e outros animais. Outros eram queimados vivos. Nesse caso, tudo começava com uma dança que ficava cada vez mais frenética. No clímax, ateava-se fogo às roupas dos condenados, embebidas em substâncias inflamáveis.
A foto acima é de um tipo de pedinte que você encontra nas ruas da cidade. No hora, você fica muito penalizado, pensando que são senhoras muito idosas que se arrastam pelas ruas sem dizer nada. Na verdade, acho que é um esquema. Vi uma moça bem jovem andando rapidamente por uma certa rua vestida de um jeito parecido, mas com a cabeça descoberta.
E haja perna para andar em Roma! Como se sabe, a cidade foi construída em uma região com sete colinas (curiosamente, a “Segunda Roma”, Constantinopla, também foi construída em uma região com sete colinas). No final dos dias, meus pés e pernas doíam muito e no final da viagem, depois de quilômetros de andanças, eu estava realmente esgotado. Mas faria tudo de novo.
Uma das coisas que mais gostei foi visitar as ruínas das termas de Caracala. No auge, elas eram imensas e abrigavam até 1.500 pessoas que podiam escolher entre piscinas de água fria, saunas, etc. A água, abundante, era trazida pelo incrível sistema de aquedutos dos romanos. O fato menos conhecido é que no subsolo escravos eram responsáveis por alimentar as caldeiras que aqueciam a água das saunas. Havia esculturas, fontes, bibliotecas. Partes das decorações ainda são visíveis, mas muitos elementos foram retirados de lá e levados para o Vaticano, etc.
Antes de tudo, a Itália é um exercício de imaginação. Grande parte do prazer que se tem é tentando-se visualizar como tudo devia ser no apogeu da cidade. As pessoas falando em latim e diversas outras línguas, gente dos mais diversos lugares, senhores e escravos, legionários, nobres, pobreza e riqueza, o refinamento e o barbarismo, a cultura e a selvageria do lugar, as cores. A Itália é uma experiência.
Kátia, da Bielorússia, ou os europeus também sentem frio
Esta é Katia, uma amiga minha e da minha namorada oriunda da Bielorrússia. Ela havia acabado de fazer aniversário e eu tinha sugerido lhe dar de presente retratos com filme preto e branco. A ideia inicial era usar minha câmera de médio formato, mas acabou que na época das fotos a câmera estava no conserto. Usei então a Voigtlaender Bessa R3A, objetivas Nokton de 50 mm e APO Lanthar de 90 mm e filme T-Max 400.
Aprendi uma coisa importante ao fazer essas fotos. Eu levei minha namorada junto para tornar a “sessão” mais fácil. Fiz isso por não saber até que ponto Kátia se sentiria à vontade na frente da câmera, então minha ideia era conversarmos bastante os três enquanto eu fazia as fotos. Acabou que percebi que Kátia não parecia tímida ao posar, mas tendia – como todo mundo – a assumir automaticamente um certo “look” quando sabia que ia ser fotografada. Quando percebi isso, passei a fazer as fotos em momentos nos quais ela estava interagindo com minha namorada. Foi possível assim conseguir uma expressão bem natural nas melhores fotos.
Outra coisa interessante aconteceu no final da sessão. Estávamos na Alemanha, em Magdeburg, era inverno e a temperatura estava por volta de 6 graus. Quando começamos, eu tinha filme suficiente para umas 20 fotos. No geral eu tinha que me proteger bastante do frio, com luvas e tudo o mais. Claro que precisei tirá-las para manusear a câmera, mas fotografar me entusiasma muito, então nem percebi o frio durante todo o tempo. Mas então, à medida que o filme acabava, eu ia percebendo que o clima ficava estranho. Katia parecia ficar cada vez mais calada e sorrir cada vez menos. Achei então que tinha que me apressar, pois concluí que ela já devia estar cansada do seu dia de modelo. Quando finalmente perguntei se havia algum problema, ela me disse que estava na verdade ficando azul de frio. Isso foi muito engraçado, pois nossa tendência no Brasil é achar que os europeus estão tão acostumados ao frio que nem o sentem de verdade. Acreditem, eles sentem frio também.
Algumas fotos coloridas de Moscou
Fiz as fotos deste post em agosto do ano passado. Nessa época, Moscou estava sofrendo sob um calor inédito, de mais de 40 graus. Desde que as temperaturas começaram a ser registradas na Rússia, mais de 100 anos antes, nunca tinha sido registrada uma temperatura tão alta. Além disso, o calor havia provocado enormes incêndios ao redor de Moscou e a cidade ficou semanas a fio coberta por fumaça. Era impossível ignorar o cheiro de vegetação queimada – e os incêndios estavam literalmente a centenas de quilômetros de distância. A ação do governo não ajudou em muita coisa e muita gente morreu ou perdeu tudo o que tinha. Foram chuvas, até onde onde sei, que no final acabaram com o problema.
Uma catedral dentro do Kremlin, em Moscou
Se você der uma olhada mais atenta nas duas primeiras fotos, vai notar que elas têm uma granulação muito alta. Os próprios tons das fotos estão meio estranhos. Isso aconteceu porque deixei o filme colorido para revelar em um laboratório e eles certamente cometeram algum erro com a temperatura na hora da revelação. Eu tinha dado esse filme por estragado, perdido – mas não é que agora passei a gostar das imagens como elas estão? Sorte não ter jogado tudo fora. Acho que usei algum filme Kodak 400 e as fotos foram feitas com uma Olympus OM 2000 e uma objetiva Olympus Zuiko de 28 mm. Não há nenhum tipo de manipulação com Photoshop ou coisa que o valha, apenas o scan dos negativos.
Ainda no Kremlin
As estações de metrô de Moscou são famosas no mundo inteiro. Abaixo está a foto de uma delas. As estações mais antigas são ricamente decoradas, têm esculturas, pinturas, etc. Muitas delas foram construídas para celebrar acontecimentos históricos, em geral relacionados às conquistas da ex-União Soviética. A estação abaixo é chamada Partizanskaya. Ela celebra os civis que se rebelaram contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra (“partisans”) e foram um importante aspecto do esforço de guerra soviético.
A estação de metrô Partizanskaya, em Moscou
A última foto é uma visão do Kremlin, que, com se sabe, é a sede do governo russo. Mas o Kremlin, na verdade, não é um prédio isolado, mas sim uma espécie de cidadela medieval, uma fortaleza, cercada por um muro. Dentro há um jardim e foi desse jardim que fiz a foto abaixo. Curioso é que em Moscou, assim como no Rio de Janeiro, existem vãs que atuam no serviço de transporte público. Lá, como aqui, as vãs existem porque os ônibus não atendem a demanda como deveriam. E a coisa funciona exatamente como aqui. No para-brisa há uma plaquinha com o número do ônibus cuja rota a van segue. Você entra, senta e depois que a van parte vem alguém para recolher o dinheiro da passagem. A diferença é que não fica ninguém gritando para anunciar os pontos do itinerário. Graças a Deus, aliás.
Algumas fotos de Riga, capital da Letônia
Em minha ignorância, eu achava até duas semanas atrás que Letônia e Látvia eram dois países, o primeiro um país báltico e o segundo outro país pouco conhecido da Europa. Na verdade, trata-se de um só país e a confusão vem do fato de esse país cuja capital é Riga, se chamar Letônia em português e Latvia na língua letã, assim como em inglês. Passei somente um dia lá, no final de fevereiro. Fiz as fotos deste post com uma câmera de médio formato, uma Yashica LM dos anos 50. Usei filme TMax 400 , que é meu favorito agora, devido ao pequeno grão. Ainda não ampliei esse negativos e as imagens são do negativo escaneado.
As exposições ficaram perfeitas. Isso aconteceu porque usei um fotômetro de mão, mais especificamente um Digisix, da Gossen. Este fotômetro foi um achado. Por ser bastante simples, é muito mais barato do que outros fotômetros do mercado, mas tenho obtido ótimos resultados com ele. Escreverei em breve sobre esse fotômetro e por que vale a pena ter um fotômetro.
Riga está dividida em duas partes: a cidade antiga, medieval, na qual fiz as fotos, e a parte moderna, que não cheguei a visitar. As construções são em geral antigas, mas abrigam coisas normais como restaurantes, lojas, etc. As ruas são estreitas e os prédios em geral baixos. A cidade é de fato tão pequena que bastam alguns passos para passar de um ponto turístico para o próximo. Ainda segundo a Wikipedia, a cidade foi tombada como patrimônio da humanidade pela UNESCO.
A primeira e a terceira fotos mostram uma rua típica da cidade. A segunda mostra a catedral de Riga, construída em 1211, segundo a Wikipedia. Muitos prédios da cidade foram totalmente destruídos durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país foi anexado pelos nazistas. Essa época, aliás, certamente foi terrível, pois o país havia sido anexado antes pela URSS, foi então conquistado pelos nazistas e depois “liberado” pelos soviéticos, que mantiveram o país na sua esfera até quase o final do século XX. Até algum tempo atrás havia até ressentimento na Letônia contra os russos, mas agora isso parece estar desaparecendo. Outra coisa que está desaparecendo são as lembranças da Segunda Guerra. Riga foi cenário de um dos maiores massacres de judeus perpetrados pelos nazistas. Mais de 30.000 homens, mulheres e crianças judias de todas as idades foram executadas a tiro por eles nos arredores da cidade, em valas abertas por prisioneiros de guerra soviéticos.
Retratos com uma objetiva de 50 mm
Quando se fala em retratos, pensa-se geralmente em imagens nas quais o rosto do retratado ocupa a maior parte da imagem. Há outras possibilidades, porém, nas quais o retrato mostra boa parte do corpo do retratado ou mesmo parte de um plano de fundo. O plano de fundo pode ser apenas visualmente interessante ou situar o retratado de alguma maneira em um contexto que diz algo sobre ele.
Aqui em Magdeburg, conheci Elias, que é sírio. Logo que o vi pela primeira vez, achei que ele tinha um rosto interessante, que poderia render bons retratos. Não, não vou dizer que tive que admitir que o cara era bonito, por favor! Já me basta ter concluído que as pessoas ao nosso redor devem ter pensado, enquanto eu fazia as fotos ao ar livre, que nós éramos gays… Mas, enfim, de volta ao assunto: Elias gostou da ideia de fazer os retratos.
O problema é que logo notei que ele parecia tenso. Por isso, de maneira intuitiva, acabei optando por não usar a objetiva de 90 mm, com a qual obteria retratos que mostrariam basicamente o rosto dele. Decidi usar a objetiva de 50 mm e escolher planos de fundo interessantes visualmente (se eu tentasse fazer zooms do rosto dele com a objetiva de 90 mm, precisaria ficar mais perto, o que provavelmente aumentaria o desconforto dele). Acabou que gostei muito do resultado. Ajudou também Elias ter, por puro acaso, vindo com uma camisa branca e o dia estar bem claro. O branco da camisa ajuda a atrair o olhar de quem vê as fotos. Usei em todas as fotos minha Voigtlaender Bessa R3A com objetiva Voigtlaender Nokton 50mm e filme Kodak T-Max 400.
Eu acredito em gnomos!
Sempre que Alëna (pronuncia-se Aliôna) anda com esse chapéu na rua, ela chama a atenção. O bom é que as pessoas acham engraçado e sorriem. Decidimos então eternizá-lo em fotos com filme preto e branco. E, para completar, compramos um charuto. O que vocês podem ver, portanto, é uma espécie de gnomo fumante (nunca experimentem charutos, a propósito, pois o troço é insuportável). .Para fazer as fotos, usei uma câmera rangefinder Voigtlaender Bessa R3A, objetiva de 90 mm (Voigtlaender 90/3.5 Apo Lanthar) e filme T-Max 400. Esse filme, aliás, se tornou meu preferido. Adorei o contraste dele e a fineza do grão.
Quem vê essas fotos da Alëna pode achar que ela sempre achou fácil posar. Nada disso. Foi só depois de muita insistência minha que ela começou a se convencer de que de fato é fotogênica. Dessa vez até fez todo tipo de caras e bocas, como vocês podem ver. Gostei tanto dessas fotos que nem sei de qual gosto mais. O problema é que tive que usar uma abertura muito grande (f/4) para desfocar o segundo plano e, assim, destacar Alëna.
E, de fato, acabou que o rosto de Alëna ficou levemente desfocado aqui. Acho, contudo, que isso não chegou a estragar a foto de vez.
Tudo sobre Fotografia is back again… with a vengeance!
Desculpem o título em inglês sem tradução, mas eu considero a expressão acima ao mesmo tempo engraçada e intraduzível. Seja como for, eis que o que Tudo sobre Fotografia (mais uma vez) retorna. Vamos ver qual vai ser o fôlego dele agora.
A foto abaixo foi feita em Moscou, mais especificamente no Kremlin. Aliás… isso, na verdade, não faz a menor diferença, já que se trata do tipo de retrato no qual só interessa o retratado. O que importa de verdade é que a moça bonita da foto se chama Alëna (se pronuncia Aliôna) e que a foto foi feita com uma Yashica LM, uma câmera de médio formato da década de 1950 (uma foto de outro exemplar desse modelo de câmera segue abaixo).
Não estranhe, aliás, a foto ser quadrada. Não se trata aqui do filme 35 mm normal, que é retangular, mas de filme 6 x 6 (ou 120) que é naturalmente quadrado mesmo.
Fazia anos que eu queria comprar uma câmera dessas, mas nunca consegui encontrar uma em bom estado e com preço razoável. Acabou que encontrei uma em São Petersburgo. Ou seja, tive que dar a volta ao mundo para comprar a câmera. E eu tive que me esforçar para não babar na loja onde comprei a câmera, pois lá só havia câmeras de filme, uma mais interessante do que a outra e a preços bem camaradas. Minha Yashica LM custou por volta de 7.000 rublos, o que deu em torno de R$ 400.
Passei uma situação curiosa em Moscou com essa câmera. Estava indo ver o Mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha, e havia uma fila imensa para que todos os turistas passassem pela segurança. O problema é que os policiais russos são notoriamente mal-encarados e sérios, eles também têm outras qualidades: são extremamente corruptos e violentos, e eu tinha que passar por um detector de metais, ter minha mochila examinada, etc. Quando chegou minha vez, estava com medo de o policial achar que a câmera era uma bomba e eu acabar em um gulag em algum lugar esquecido da Sibéria. Mas aí aconteceu uma coisa curiosa: o guarda mandou que eu abrisse a bolsa original na qual a câmera estava (um acessório de couro muito maneiro). Quando ele viu a câmera, chamou a atenção de um colega, apontou para a câmera, sorriu e disse “Kryta!”, que quer dizer algo como “legal” em russo. Segundo Alëna, foi a primeira vez que ela viu um policial sorrir naquele país.
Então, se você quiser evitar problemas com os policiais russos, compre uma câmera dos anos 50. Talvez o truque não funcione, mas aí o azar é seu.
Ainda Berlim…
Claro que o campo de concentração de Sachsenhausen não foi o único lugar que visitei em Berlim. Faziam parte dos programas culturais oferecidos pelo Instituto Goethe visitas a diversos museus – e Berlim parece que tem centenas deles. A foto acima foi feita na Alte Nationalgalerie. Nesta ala estão pinturas do suíço Arnold Böcklin. À esquerda um autorretrato dele e à direita outro quatro famoso, A Ilha dos Mortos. Eu tinha descoberto Böcklin poucos meses antes, quando preparei uma apresentação, no curso de alemão, sobre a Peste Negra e usei um quadro de Böcklin para ilustrar o tema. Foi curioso então de repente me encontrar, meses mais tarde, diante de obras dele.
A senhora na foto foi nossa guia. Pena que eu não me lembre mais do nome dela, pois nesse dia ela fez uma apresentação magistral sobre um quadro de Renoir. Todos os museus que visitei em Berlim foram espetaculares. Apenas uma visita não me agradou. Foi a visita ao Jüdisches Museum (Museu Judaico). Os objetos que estavam expostos eram naturalmente interessantíssimos, mas esse museu segue essa orientação modernosa de proporcionar “interatividade” ao visitante. Assim, você precisava mexer nos objetos, abrir caixas, acionar mecanismos etc., para “interagir” com os objetos expostos. Eu acho que isso transforma a visita em uma espécie de brincadeira. No final, em vez de o visitante aprender algo, ele tem uma experiência lúdica. Fazer o quê? Modismo é modismo.
Já a guia da foto acima realmente ensinou muito. Quando ela explicava o porquê de cada quadro, isso valia por livros inteiros. Sem falar do lado histórico. Ela contou, por exemplo, que após o fim da guerra, com Berlim destruída, muitas obras de arte continuavam nos abrigos subterrâneos para os quais tinham sido transportadas. Certa noite, os soviéticos informaram que tinha havido um incêndio em um Bunker em Friedrichshain (curiosamente, perto de onde me alojei nos primeiros dias em Berlim). Segundo os soviéticos, dezenas de obras de Rembrandt teriam se perdido, sem falar de várias de Caravaggio. A destruição destas últimas era particularmente lamentável, já que dele nunca houve de qualquer forma muitas obras (ele morreu novo, supostamente assassinado). Mas circulam rumores desde a época do pós-guerra de que o incêndio teria sido uma farsa dos soviéticos. As obras teriam sido todas levadas para o Hermitage, em São Petersburgo… É impressionante como Berlim tem História.
A outra foto é só um lado mais pessoal da estada em Berlim. Esta é uma aluna da minha turma, uma vietnamita, enquanto era fotografada por outra vietnamita, que não aparece na foto. Na minha turma, aliás, eu era o único brasileiro (e o único homem também). Havia três ucranianas, cinco francesas, duas italianas, uma mexicana e as duas vietnamitas. Sem falar das outras turmas, nas quais havia gente de todo o mundo. Foi interessante ver na prática como pessoas de todo o mundo podem, afinal, viver em paz. Pena que boa parte não queira.
Uma visita ao Campo de Concentração de Sachsenhausen, em Berlim (II)
A foto acima foi feita no campo de concentração de Sachsenhausen, em Berlim, no final de 2009. O objeto à direita é um aparelho de tortura usado no campo naquela época. Sachsenhausen, tal como existe hoje, é um museu e centro de informações. Praticamente todas as instalações que se pode visitar hoje foram reconstruídas. De outras há só vestígios.
Durante a visita, o guia nos contou que este foi o segundo campo a ser construído pelos nazistas, ainda no começo da década de 30, ou seja, antes do começo da guerra. Ele foi projetado para aqueles considerados opositores do regime, o que incluía não apenas judeus, mas também socialistas, comunistas, etc. Além disso, era uma espécie de escola para carrascos. O pessoal que se destacava na administração do campo – e na crueldade – avançava na carreira e era mandado para outros campos à medida que estes iam sendo construídos.
Estes postes eram um método de tortura preferido dos nazistas. Os presos eram pendurados pelos pulsos, com os braços para trás, e deixados assim por horas a fio. No final, as dores eram excruciantes. Já durante a guerra, o campo chegou a abrigar prisioneiros soviéticos. No início da campanha nazistas contra a União Soviética (em 1942-43), milhões de soldados soviéticos foram feitos prisioneiros pelas tropas alemãs. Os nazistas não tinham feito planos para acomodar tantos prisioneiros. Milhões foram simplesmente, e literalmente, deixados para morrer de fome. Em Sachsenhausen, alguns milhares foram assassinados por um método típico da mentalidade nazista: eles foram informados que uma espécie de censo seria feito e que ele incluiria a verificação da altura de cada prisioneiro. Estes deveriam se dirigir, um por vez, a uma sala no campo. Lá chegando, tinham que subir em uma plataforma e ficar de costas para uma estrutura móvel. Quando essa estrutura era ajustada, supostamente para indicar a altura do prisioneiro, isso na verdade liberava a visão da nuca do prisioneiro para um soldado postado, oculto, atrás da parede. Este então simplesmente apontava sua arma e eliminava o prisioneiro a sangue frio. Suponho que essa cena tenha se repetido por dias a fio, já que milhares de soldados soviéticos tiveram esse destino. Irônico é saber que os nazistas na verdade se inspiraram em métodos criados por outro povo quando criaram os seus campos de concentração. Eles se inspiraram… nos soviéticos. Estes já reprimiam há décadas todo tipo de oposição amontoando os supostos ou verdadeiros opositores em campos. E os soviéticos tinham métodos de eliminação dos opositores igualmente perversos, como ocorreu durante o massacre de Katyn (há um filme recente, de Andzrej Wajda, sobre esse episódio). O ódio racial dos alemães, porém, foi criação original. Até onde sei, não havia nada semelhante nos campos soviéticos.
Esta foto foi feita em uma das células (reconstruídas) da então temida prisão da Gestapo no campo de Sachsenhausen. Dá para ver, à esquerda, uma ilustração de como os postes da foto anterior eram usados. Se não me engano, nesta cela ficou preso o pastor Martin Niemöller, que pregava contra os nazistas e foi, assim, um dos poucos a fazer oposição aberta ao regime dentro da Alemanha. Ele foi, é claro, perseguido, e ficou detido por sete anos em campos de concentração – primeiro em Sachsenhausen e depois em Dachau. Difícil imaginar quanta coragem ele precisou ter. Eu mesmo não sabia disso, mas foi ele o autor do texto abaixo, do qual há várias versões:
“Quando eles levaram os comunistas, calei-me, porque, afinal, não era comunista.
Quando eles prenderam os social-democratas, calei-me, porque, afinal,não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, não protestei, porque, afinal, não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, não protestei, porque, afinal, não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.
Você poderia perguntar (e eu já ouvi essa pergunta) por que visitar um campo de concentração? Por que fazer uma coisa tão mórbida? Além do fato óbvio de que um lugar como esse tem uma importância histórica tremenda, há outros motivos menos claros. Penso, por exemplo, no quanto as histórias de pessoas que passaram por esses lugares, e até sobreviveram a eles, servem para colocarmos nossa própria postura perante a vida em perspectiva. Quer dizer, muitas vezes reclamamos e nos sentimos as pessoas mais infelizes do mundo por motivos que são, no final das contas, totalmente irrelevantes ou mesmo pueris. A vida da maioria das pessoas é, no final das contas, uma experiência fácil e alegre em comparação com as vidas de pessoas que sofreram e morreram em lugares sem esperança como esse. Muitas vezes somos, literalmente, felizes e não sabemos.
Uma visita ao Campo de Concentração de Sachsenhausen, em Berlim (I)
Hoje vou mostrar algumas fotos que fiz em Berlim, mais especificamente no Campo de Concentração de Sachsenhausen, durante a viagem que fiz no ano passado. Todas as fotos foram feitas com minha Olympus OM-2000 e uma grande-angular que hoje considero minha melhor objetiva. Devo minha viagem à Alemanha ao Instituto Goethe, que me concedeu uma bolsa de estudos para terminar meu curso de alemão em Berlim. A visita a Sachsenhausen fazia parte dos programas culturais oferecidos durante o curso. Sachsenhausen fica nos arredores de Berlim, a cerca de 30 minutos de trem do centro da cidade.
A primeira foto, abaixo, fiz com um filme colorido especial, conhecido como slide ou cromo. Não se trata de foto digital, naturalmente. Ela foi feita próximo da entrada do campo.
O texto da placa no primeiro plano diz o seguinte: “[Abril de 1945] Marcha da Morte dos prisioneiros do Campo de Concentração Sachsenhausen. Mais de 6.000 foram assassinados pela Waffen SS durante essa marcha. O seu legado permanece vivo nos nosso atos”. Essas marchas da morte aconteceram à medida que a Alemanha perdia a guerra e os aliados (os soviéticos pelo leste e os americanos, franceses e ingleses pelo oeste) iam avançando pelo país. Nelas, os prisioneiros dos campos de concentração foram obrigados a caminhar até milhares de quilômetros em direção a áreas ainda sob controle alemão. No começo foram obrigados a caminha em pleno inverno, sem roupas adequadas, sem alimentação adequada e muitas vezes doentes. Os mais fracos ou morriam pelo caminho ou eram assassinados. Essas marchas foram uma tentativa de recobrir o genocídio cometido pelos nazistas nos campos de concentração ou, talvez, apenas outra maneira de fazer essas pessoas sofrerem ainda mais.
Outro detalhe dessa foto está no fundo. Trata-se de casas comuns, onde vivem famílias comuns. Uma coisa que me impressionou muito quando cheguei ao campo foi perceber que a poucos metros deles há residências, escolas, cafés. Isso pode parecer bobo, mas eu não tinha pensado nisso. Como será viver a poucos metros de um lugar no qual milhares de pessoas foram por anos a fio maltratadas, torturadas e assassinadas a sangue frio? Estranho imaginar que muitos moradores do lugar abrem a janela de manhã e se deparam diariamente com um lugar com esse passado. Mas, por outro lado, é ainda mais estranho imaginar que as pessoas naquela época, por anos a fio, viveram ao lado dos campos enquanto os crimes eram cometidos.
A segunda foto já foi feita com filme preto e branco.
Ela mostra um dos monumentos em um jardim já dentro do campo. Esse monumento me impressionou muito. A idéia da cruz no chão, como se tivesse se soltado ou sido arrancada do bloco de pedra é muito impactante. A primeira parte do texto visível à direita vem da Bíblia (Carta de Paulo aos Romanos, 8, 38): “nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor”. O texto abaixo informa que o monumento foi erigido em homenagem a aproximadamente 700 clérigos que, junto com inúmeros outros cristãos da Polônia, da Alemanha e de outros países europeus sofreram neste lugar.
A última foto foi feita dentro do campo.
É apenas uma árvore, do lado de fora de um dos barracões (reconstruídos) nos quais os prisioneiros eram amontoados. Era começo de inverno em Berlim e a árvore estava sem folhas. Ela chamava a atenção, uma vez que era basicamente branca e ficava contra um fundo e um entorno mais escuros. (Dá para ver a minha próprio sombra, abaixo e à direita.) Era uma cena bonita e eu me peguei tentando imaginar como deveria ser para os prisioneiros naquela época, em meio a tanto sofrimento e provavelmente vivendo uma absoluta falta de esperança, de repente se deparar com algo belo. Suponho que alguns percebessem o belo, outros não, mas que impacto será que a percepção do belo tinha sobre aqueles que nessas circunstâncias o percebiam? Bem, de qualquer forma é claro que tentar imaginar isso é tentar imaginar o inimaginável.
No que diz respeito à fotografia propriamente dita, vale a pena comentar o que já mencionei no início, ou seja, que usei em todas essas fotos uma ótima objetiva grande-angular da Olympus. Se não me engano, trata-se de uma 24 mm (não estou com ela em mãos agora). O mais interessante com relação a esse tipo de objetiva é que as fotos dão a impressão de que o observador está “dentro” da cena. Outra vantagem, menos óbvia mas extremamente importante, diz respeito à grande profundidade de campo que elas oferecem. Com essa objetiva eu podia selecionar a abertura f/8 ou f/11 e fotografar sem me preocupar com o foco, pois sabia que tudo a partir de 1 metro de distância estaria em foco. Falo disso com mais detalhes da próxima vez.






























